
O curso de Formação de Jovens Pesquisadores na área
de Línguas Indígenas Brasileiras é oferecido como curso
lato sensu (especialização), pretendendo articular ensino de
graduação e ensino de pós-graduação - articulação
essa que não se encontra formalmente instituída nos poucos centros
brasileiros voltados para o estudo de línguas indígenas.
Além de não haver iniciativa educacional dessa natureza em qualquer
outro curso no Brasil, a perspectiva assumida na presente proposta também
é inovadora no seu enfoque teórico, por pretender capacitar
futuros pesquisadores a tratar os dados das línguas indígenas
sob a perspectiva de teorias lingüísticas formais, com ênfase
na gramática gerativa.
O estudo de línguas indígenas brasileiras à luz de teorias
formais está praticamente ausente de outros centros de pesquisa em
línguas indígenas do país. O conhecimento mais aprofundado
da gramática dessas línguas pode trazer contribuições
significativas para as teorias em questão, já que a descoberta
de novos fenômenos poderá confirmar ou refutar as diversas hipóteses,
podendo, portanto, contribuir para a reformulação das mesmas.
Cumpre ainda lembrar que o campo de línguas indígenas no Brasil
é carente em termos de pessoal especializado e, se não for revitalizado
a tempo, poderá desaparecer ao longo dos anos, juntamente com as línguas
que são seu objeto de estudo, muitas das quais se encontram em sério
perigo de extinção.
Mais especificamente, salientamos que as línguas indígenas brasileiras
estão entre as menos conhecidas do mundo. Há aproximadamente
180 línguas faladas no país atualmente. Estima-se que 50% destas
línguas foram objeto de algum trabalho descritivo publicado (Rodrigues,
1985) e que apenas 10% delas têm descrições completas
de boa qualidade (Moore & Storto, 1991). A grande maioria das publicacões
resume-se a descrições da fonologia segmental ou aspectos isolados
da sintaxe. Apesar de ter havido um aumento significativo no número
de lingüistas formados na área de lingüística indígena
durante a década de 80 (Seki, 1999), ainda estamos longe de ter pessoal
qualificado para dar conta de descrição e análise da
maior parte das línguas faladas no território nacional.
Além de serem pouco conhecidas, muitas das línguas indígenas
brasileiras estão em pleno processo de extinção, o que
torna a formação de lingüistas especialistas mais premente.
O Brasil tem hoje, no máximo, 150.000 falantes de línguas indígenas,
o que totaliza uma média de 9000 falantes por língua - 36 línguas
com menos de 100 falantes, e 14 destas com menos de 50 (Rodrigues, 1985).
As pressões culturais e financeiras sofridas pelos povos indígenas
nas últimas décadas só contribuem negativamente para
este quadro. Moore e Storto (1991) calculam, por exemplo, que das 25 línguas
do estado de Rondônia, 10% não estão mais em uso, 20%
têm um número baixo de falantes e jovens que não falam
a língua. Apenas 35% das línguas de Rondônia têm
um número razoável de falantes, incluindo jovens.
Não basta, no entanto, concentrar nossa atenção no número
de especialistas a ser formado. A qualidade de sua formação
é fundamental para o desenvolvimento das áreas de Línguas
Indígenas e das Ciéncias da Linguagem.
Vale ressaltar que, apesar de já ocuparem uma posição
de destaque na América do Sul, os pesquisadores das línguas
brasileiras têm condições de trazer uma contribuição
muito maior do que já fazem ao estudo da lingüística universal.
Neste quadro, a lingüística formal gerativa tem um papel a cumprir,
pois além de ser o modelo teórico mais reconhecido internacionalmente,
fornece ao pesquisador ferramentas que podem auxiliá-lo no entendimento
das estruturas da língua que investiga. Sem esse entendimento, não
é possível conhecer a língua mais profundamente, o que
impossibilita as descrições gramaticais completas de boa qualidade,
que são tão raras no Brasil. Acreditamos que essa falha na formação
dos lingüistas atuais pode ser suprida com programas como o que oferecemos,
que fornecem uma concentração nos aspectos lingüísticos
formais e universais. Além de contribuir para a base de dados das línguas
do mundo, importante tanto para a tipologia, quanto para o estudo de universais,
as línguas indígenas brasileiras têm um papel importante
no desenvolvimento das teorias lingüísticas, pois podem acrescentar
descobertas que venham a modificar a formulação atual das teorias.
Dra. Márcia Damaso Vieira
Coordenadora do Curso
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Atualizado em 14 de novembro 2001.